A Leitura Entre os Discentes de Produção Cultural no IACS

Ana Clara Peixoto

Letícia Paixão Wermelinger

Lídia Nascimento Fateicha de Oliveira

Mayara Cristina de Oliveira

INTRODUÇÃO

A presente pesquisa tem por objetivo compreender se os hábitos de leitura dos graduandos em Produção Cultural da Universidade Federal Fluminense (UFF) se modificaram após sua inserção na universidade. Para tal, a pesquisa foi realizada por meio de um questionário, criado na plataforma Google Forms[1], que foi divulgado no grupo fechado do Facebook “Procult é amor”, grupo composto por alunos e ex-alunos do curso de Produção Cultural do IACS.  A pesquisa foi realizada no período de 17 à 23 de Maio e como resultado, foram obtidas 53 respostas de alunos de variados períodos da graduação.

Através das perguntas feitas, procuramos entender como eram os hábitos de leitura desses estudantes antes de entrarem no meio acadêmico e como são esses hábitos hoje, agora que frequentam a universidade. Tencionamos no formulário questões como: a quantidade de tempo dedicado à leitura, a espécie de material literário consumido, o modo como estes estudantes encaram as leituras para fins acadêmicos e recreativos e se os alunos acham que a demanda de textos pedidos pelas disciplinas, bem como a rotina corrida que muitos universitários levam, influenciam na quantidade de tempo que poderiam dedicar a leitura recreativa.   

A fim de servir como suporte para a análise dos dados, a principal hipótese que este trabalho pretende afirmar é: Os alunos da graduação em Produção Cultural da UFF de Niterói dedicam menos tempo à leitura com fins recreativos do que dedicavam antes de entrarem no curso de graduação.

DESENVOLVIMENTO

Antes de se iniciar um questionário diretamente com perguntas em cima de uma hipótese, algumas questões prévias são importantes de serem pensadas. Para tal, pensaremos, previamente, em algumas questões socioeconômicas dos pesquisados, além da realidade de leitura atual dos mesmos, no intuito de servir de base para uma comparação mais bem embasada.

Para analisar a relação entre as leituras dos estudantes, as extra-disciplinares e as intra-disciplinares, precisamos, primeiramente, saber o interesse que estes mesmos graduandos tem em uma leitura extra-disciplinar por lazer, obtendo uma resposta de 92,5% das pessoa declarando possuir um gosto por tal atividade.

            Pensando, então, no tempo empregado por tais estudantes em seus dois focos de leitura, podemos perceber que o tempo utilizado para as leituras obrigatórias é consideravelmente maior do que nas demais. Enquanto 60,4% das pessoas dedica menos de uma hora por dia para as leituras de lazer, para a leitura acadêmica esse mesmo tempo é empregado por apenas 34% das pessoas. O oposto ocorre com relação aos que não dedicam tempo algum, tendo a leitura por hobby quase três vezes a quantidade de gente que a acadêmica nessa categoria. Ou seja, comparando as porcentagens de quem emprega mais de uma hora em determinada leitura, a acadêmica fica com 52,8%, enquanto a de lazer teve apenas duas pessoas, com uma porcentagem de 3,8%.

            Com relação à carga de leitura intra-disciplinar exigida aos discentes de Produção Cultural, 62,3% das respostas obtidas não consideraram a carga de leitura pesada. Reafirmando essa alegação, vemos que 64,2% das pessoas alegaram ter tempo de leituras externas às suas obrigações acadêmicas. Entretanto, uma minoria de apenas 20,8% declara ler todos os textos propostos nas suas disciplinas. Podemos perceber, então, uma contradição entre esses números, pois se a pessoa não julga a carga pesada e se ela tem tempo para demais leituras, por quê, então, ela não cumpre toda a sua leitura obrigatória? Essa é uma questão deveria ser analisada isoladamente, carecendo de uma nova pesquisa para tal, contudo, podemos inferir que há uma questão maior que contamina o comprometimento dos estudantes para com as suas leituras de sala de aula. Um entendimento que é corroborado ao entendermos que um pouco mais da metade (54,7%) dos graduandos dizem sentir culpa ao fazer uma leitura por hobby, no lugar de estar lendo os textos acadêmicos solicitados em suas disciplinas.

            Devemos considerar, contudo, que a Universidade não é o único fator que influencia no tempo empregado em leitura de seus graduandos. Dois exemplos de fator externo que pudemos pesquisar foram a existência de filhos e de um trabalho (ou estágio), que garantem ao graduando menos tempo de estudo. Percebemos que o fatos “filhos” é bem pequeno (apenas 7,5% possuem essa obrigação), o que está muito relacionado com a idade média dos estudantes (pouco mais da metade, 50,9%, possui entre 21 e 25 anos, e outros 24,5% possui uma idade ainda inferior a isso). Em contrapartida, mais da metade (52,8%) possui um trabalho ou um estágio para se dedicar além das obrigações acadêmicas. Uma terceira grande influência aos hábitos de leitura, desta vez interna à graduação, é o período em que a pessoa se encontra, que poderia modificar os dados de acordo com a quantidade de pessoas de determinado período entre os pesquisados, o que não é aplicável aqui.

           35,8% dos estudantes entrevistados declararam não dedicar tempo à leitura recreativa. Antes do ingresso no curso o número de não leitores era de apenas 11,7%. Dos estudantes que se dedicam à leitura recreativa diariamente, 60,4% o fazem por apenas 1 hora ou menos.

Em uma outra etapa do questionário fizemos um comparativo dos hábitos de leitura antes e depois do ingresso na faculdade. Quando questionamos sobre o tipo de leitura antes e atualmente, 84,9% responderam que liam livros antes de entrar, após a inserção na Academia os livros continuaram a frente, agora com 62,3%. Logo em seguida dos livros, os blogs aparecem com 32,1% antes do curso mas perdem espaço para os artigos na segunda etapa do questionário que possuem agora 54,7%. A partir dessa análise é possível concluir que a procura de artigos aumentou por ser uma escrita que é cobrada dentro da Universidade e houve uma queda em relação a leitura dos blogs por ser uma escrita que em sua maioria, não se utiliza da linguagem acadêmica.

Essa priorização do conhecimento científico em detrimento dos outros pode ser observado quando 56,6% das pessoas responderam que acreditam que a leitura acadêmica seja mais importante que outras. Esses dados mostram como o ambiente que a pessoa está inserida define e altera o conteúdo que ela irá procurar em seu tempo-livre.

          Quando perguntados sobre quais atividades acabam substituindo seus hábitos de leitura recreativa, os entrevistados citaram o uso de Redes Sociais e o hábito de assistir séries em plataformas de conteúdo streaming.

          Parte dos entrevistados citou o tempo gasto no transporte público como um grande consumidor de tempo e impeditivo de suas atividades de leitura recreativa. Os trabalhos acadêmicos também foram muito citados como obrigações que ocupam grande parte do tempo livre na rotina dos estudantes.

          É curioso analisar que as tarefas domésticas também são citadas como atividades impeditivas de leitura recreativa e grandes consumidoras de horas livres das mulheres, todas as pessoas que deram essa resposta são do gênero feminino.

CONCLUSÃO

A leitura é parte fundamental para o indivíduo que entra na Universidade. A intensa, porém em sua maioria das vezes necessária, carga de leitura e outros pontos que levantamos ao decorrer desta pesquisa irão interferir diretamente no hábito de leitura do estudante. A hipótese inicial deste artigo de entender se  “os alunos da graduação em Produção Cultural da UFF de Niterói dedicam menos tempo à leitura com fins recreativos do que dedicavam antes de entrarem no curso de graduação” foi confirmada. Deste questionário pode-se extrair outras informações relevantes como o fato das mulheres terem sido as únicas a responder que os afazeres domésticos tomavam tempo livre, entre outras questões.

Mesmo Produção Cultural sendo um curso versátil que problematiza questões como sucumbir a determinadas lógicas e reconhecer diferentes tipos de conhecimento, percebe-se que a leitura científica ganha mais espaço e ocupa o tempo que era destinado para outros tipos de escrita. O grupo percebeu a necessidade de entender como se dá essa relação entre a leitura antes e depois do curso de Produção Cultural. Ao final dessa busca analisamos alguns pontos que poderiam melhorar em relação ao questionário como por exemplo a falta de perguntas que abarque a realidade socioeconômica dos estudantes do curso de Produção Cultural, o que irá interferir diretamente no tipo de leitura que eles fazem, se eles investem financeiramente nessa questão, a mobilidade urbana e outros aspectos fundamentais para entender essa dinâmica.


[1] Plataforma do Google destinada a criação de questionários online.