Orwell e Sidarta: Encontro (Im)possivel

Árvore Boddhi
Árvore Boddhi

Eu gostaria de falar sobre o duplipensar mas a primeira coisa que me vem a mente é que não tenho nenhuma base teórica de qualquer ciência para fazê-lo. Talvez fosse esse um bom motivo para parar por aqui, mas parece que não vai acontecer…

Duplipensar é um termo cunhado por George Orwell no livro 1984. Neste, o autor imagina uma distopia ou uma antiutopia na qual a sociedade é completamente dominada por um poder de tal forma controlador que mesmo o termo totalitarismo é pequeno para aquele.

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Orwell escreveu 1984 em um período que o mundo já conhecia a capacidade de surgimento de Totalitarismos como o nazista da Alemanha e o Stalinista da União Soviética. Escreveu a maior parte do livro percebendo a deterioração de sua própria saúde e, assim, como um testamento, pensando um mundo baseado em possibilidades nefastas que tinham já seu germe presente nas trilhas da história, levou a ideia totalitarista até a possibilidade da imaginação: um mundo em que nem a intimidade é considerada, uma sociedade regida por um “Grande Irmão” que tudo vê e que se personifica em várias telas de TV presentes em cada uma das residências e nas ruas destruídas posto que são lugar de passagem, não lugar de vivência.

Nesta estória Orwell cria um personagem que é o contraponto desta uniformização porque reflete e pensa, porque traduz seus desejos em atos e, não por acaso, o nome inicial que o autor queria dar a seu romance era “O ultimo Homem da Europa” porque, sob qualquer ângulo, o personagem corporifica a humanidade apaixonada e reflexiva que, por isso é também, no enredo da estória, fadada a um controle pelo Estado que pretende destruir a individualidade.

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Em trecho emblemático há um embate entre o personagem principal que, torturado pelo representante do sistema acaba por acreditar que 2 + 2 são cinco, apesar de saber que são quatro. Esse é o duplipensar, nada distante – infelizmente – do nosso quotidiano quando realizamos coisas que, racionalmente condenamos como as pequenas corrupções de atos e palavras que compõe o dia a dia.

Aqui promovo o encontro desta reflexão com o pensamento de Buddha que, ao afirmar que há sofrimento e este tem solução, mostrou esta última através do Nobre Caminho Óctuplo que afirma, entre outras coisas, que é básico que haja ação e pensamentos corretos.

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Mas como ter pensamento e ações corretas se o recurso de pensar duas coisas antagônicas e – muitas vezes – discordantes, tem sido corriqueiras? Como agir corretamente se a reação às coisas depende de parâmetros que estão em conflito? Como agir e pensar com correção se o que temos é uma adaptação, um cotejo das considerações cotidianas que melhor se adéquam à nossa busca incessante por coisas agradáveis?

A solução ao alcance da mente é difícil porque implica em buscar um equilíbrio entre aversões e paixões dando às coisas o seu real valor através de um outro elemento também elencado por Buddha no Nobre Caminho Óctuplo: a compreensão correta. Esta é essencial para que percebamos quando criamos estes pensamentos duplos, estas rotas de fuga e justificação.

Na mesma senda acima não é possível esquecer de outros elementos dos oito do Caminho que são auxiliares imprescindíveis na eliminação do duplipensar e suas consequências: esforçar-se para manter a concentração e a atenção nos gatilhos de reação que moldam os pensamentos duplos e, principalmente, viver sinceramente e não pautar a vida em simulacros cômodos.

Isso importa não só para a formação de indivíduos mas para a construção de uma sociedade que cada vez mais tem acesso a opiniões e posicionamentos dos indivíduos que a formam através de redes sociais mediadas pela internet. Se não nos choca a violência física quotidiana banalizada é cada vez mais aparente a ilogicidade com a qual os discursos são construídos, evidenciando uma incoerência tão humana e tão baseada na ignorância, no egoísmo e no duplipensar.

Então, creio, que quando o mundo reclama da falta de empatia, está ruminando, dentro do duplipensar, o fato que o ser humano não consegue se ver no outro porque, se é inegável sua humanidade comum, é inexpugnável a razão (ou falta dela) para desconsiderar tal  característica básica e formativa para hierarquizar pessoas e assim justificar a desumanização do outro.

Quanto mais reflito considero ser o mais primordial o conhecimento de si, o abandono da ignorância porque dela, em consonância com o pensamento de Buddha, está a raiz do sofrimento, do outro ou próprio porque a caça por justificativas que paralelizem com a realidade para dar conta de incoerências não é saudável nem para a sociedade nem para a vivência do individuo.